Documentário: Surplus

>> terça-feira, 13 de março de 2012

                       “As sociedades de consumo destruíram o meio ambiente, liquidaram milhões de espécies de plantas e animais, envenenaram os mares, rios e lagos, contaminaram o ar, saturaram a atmosfera com dióxido de carbono e outros gases nocivos. Destruíram a camada de ozônio, esgotaram nossas reservas de petróleo, carbono e gás natural e ricas fontes de minerais sólidos. Exterminaram nossas florestas e destruíram as deles. E o que nos sobra? O subdesenvolvimento, a pobreza, a dependência, o atraso, a dívida, a incerteza. Para a sociedade desenvolvida o problema não é crescer, e sim, distribuir, e não só distribuir entre elas, e sim entre todos. O crescimento sustentável que falam não é possível sem uma distribuição justa entre todos os países, para, afinal, a humanidade se tornar uma só família, todos dividindo o mesmo destino. Dada a severa crise atual, nós podemos encarar um futuro ainda pior, no qual jamais resolveríamos as tragédias econômica, social e ecológica de um mundo cada vez mais fora de controle. Alguma coisa tem que ser feita para salvar a humanidade. Um mundo melhor é possível!”
No curso de economia uma das primeiras coisas que aprendemos é a definição de que economia é a ciência que estuda a forma como as sociedades utilizam os recursos escassos para produzir bens com valor e de como os distribuem entre os vários indivíduos. Refletindo isso, estudamos a Lei de Say, um dos pilares da economia ortodoxa até o final da década de 20 e que já foi sintetizada pela expressão “a oferta cria sua própria demanda”. Esse posicionamento foi defendido até a crise de superprodução de 1929, quando foi rebatida por Keynes que defendia que nem tudo o que é ofertado necessariamente terá sua demanda garantida, sugerindo, assim, uma intervenção estatal na economia. Após esses fatos, nas décadas seguintes seguiram várias discussões entre keynesianos e neoliberais acerca dessa intervenção estatal, mas o fato é que nessa época também houve um grande crescimento da produção de bens e serviços acompanhada por um intenso desenvolvimento da propaganda de modo que chegamos na sociedade de consumo contemporânea apontada na citação do começo deste texto.
A citação, é o trecho de um discurso de Fidel Castro, que faz parte da abertura do filme Surplus (Surplus: Terrorized Into Being Consumers, 2003), documentário sueco dirigido pelo italiano Erik Gandini. Surplus em inglês significa excedente, e por esse sentido o documentário pretende analisar essa nossa sociedade no quesito do seu consumismo. Apresentando de uma forma dinâmica, com um jogo de imagens e sons, Erik Gandini faz um documentário interessante que não perde o ritmo ao longo dos seus 50 minutos prendendo a atenção de quem assiste. Frases como “nós não podemos deixar que os terroristas atinjam o objetivo de aterrorizar nossa nação até o ponto em que as pessoas não comprem”, dita pelo ex-presidente americano George Bush em um discurso, é usada e abusada para caracterizar nossa sociedade. Até o processo de fabricação de real dolls é apresentado, como se quisesse mostrar que até algo excêntrico e bizarro como isso faz parte da demanda da sociedade.
Aprofundando mais na questão, o documentário aborda todo o mecanismo que garante o consumismo, como por exemplo, a ideologia difundida de que a tecnologia é uma ferramenta para a aproximação das pessoas, discurso esse que acaba sendo utilizado para o desenvolvimento de mais e mais produtos que serão os novos aparelhos indispensáveis do momento. Ressalta-se, assim, todo o poder da propaganda que existe nos dias de hoje. Propaganda essa que é realizada não só pelas empresas mas também pelos governos que precisam garantir que a economia do país continue funcionando em pleno vapor.
Sendo assim, a ideia de que o que é ofertado não necessariamente tem sua demanda garantida chega a ser questionada com o tamanho da força dessa propaganda nos dias de hoje. É difícil dizer que um computador não é uma necessidade básica para um adulto, adolescente e até mesmo uma criança. O estilo de vida é criado ou redefinido. Quantas vezes deixamos de nos alimentar bem ou dormir direito para realizar algo do trabalho/estágio ou da faculdade? E tudo isso para quê? Para garantirmos uma estabilidade financeira futura que nos permita estabelecer na sociedade, ou em outras palavras, que possamos comprar ou fazer o que quisermos. O conceito do que é necessidade básica para as pessoas é constantemente alterado ao longo do tempo. Não precisamos simplesmente nos alimentar, precisamos nos alimentar de tal forma, comer tal marca de produto, em tal quantidade e assim por diante.
Porém o filme não apenas retrata essa influência externa sobre os hábitos das pessoas; ele também procura analisar o comportamento humano. Em contrapartida à sociedade que estamos acostumados, apresenta-se o ideal que se mantém em Cuba, onde vemos outdoors espalhados com a recomendação/imposição “consuma somente o necessário”. Em seguida nos é apresentado o depoimento de uma cubana que viajou a Europa certa vez e ficou chocada e maravilhada com a quantidade e variedade de alimentos e produtos que era ofertado. O seu comportamento ao descrever todo o seu encanto com a experiência é algo que choca, assemelhando-se a uma criança diante de um brinquedo novo ou até mesmo a um dependente químico. Nesse ponto cabe uma discussão: esse consumismo todo é resultado de uma propaganda forte e eficiente, ou tudo isso é resultado de uma tendência natural do ser humano por querer sempre mais, pela fartura, pela diversificação?
Ainda um outro ponto analisado pelo documentário é a preocupação de até onde a sociedade e o planeta irão chegar com todo esse consumismo. Como podemos ver na citação do início do texto, são apresentadas as externalidades negativas. Todo esse processo de produção intenso gera poluição, esgotamento de recursos, além da exclusão social e prejudica o crescimento de países subdesenvolvidos
Enfim, abordando o tema do consumismo através de diversas nuances, o documentário apresenta várias questões que devemos considerar nos nossos estudos e análises econômicas, tanto no âmbito microeconômico como no macroeconômico. Se o filme pode parecer para alguns uma argumentação unilateral sobre o consumismo, temos toda nossa sociedade, em que crescemos e fomos educados/condicionados, para gerar os argumentos contrários. Sendo assim, podemos dizer que, como o filme provavelmente não irá mudar radicalmente nosso comportamento e pensamento, provavelmente ele nos seja útil para sermos receptivos a um novo ponto de vista, não apenas como estudantes de economia, mas também como indivíduos integrantes da sociedade.

O documentário pode ser visto na integra e legendado no youtube: http://www.youtube.com/watch?v=YbpmWeymWWw



Erick Rodrigo da Mota
Graduando em Ciências Econômicas
Universidade Federal de Goiás

1 comentários:

Rogerio Floripa 14 de março de 2013 09:03  

Baixar o Documentário - Surplus - Aterrorizados Para Sermos Consumidores - http://goo.gl/qJVsN

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